A-Set's Official Diatribe

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"If the only tool you have is a hammer, you tend to see every problem as a nail." - Abraham Maslow
:: 16 April 2008 »

Trouver la langue, como em Rimbaud...

...e em Manoel de Barros:

"Por viver muitos anos
dentro do mato
Moda ave
O menino pegou
um olhar de pássaro -
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava
as coisas
Por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar as pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em um abelha, era só abrir a palavra abelha
e entrar dentro dela.
Como se fosse infância da língua."

Trecho do poema "Canção do ver" de Manoel de Barros, em "Poemas Rupestres".
:: 10 April 2008 »

Inspiração e criação

Às vezes quero dizer algo e me pego mudo, compondo melodias vazias. Quando a criatividade se esvai, percebo o quão pequeno sou. Acontece, porém, que às vezes sinto-me a criar, mas nada produzo. Tento entender se o vazio é apenas um momentâneo silêncio.

Uma sala com um piano possui música em potência, espera apenas o movimento das teclas, das cordas. Há, no entanto, salas sem pianos, sem livros e sem quadros, vazias. Mas não esta em que me encontro!

Lá estão o piano, a pena, as tintas. Parece-me que esqueci como usar tais ferramentas, que tudo é apenas potência e jamais virá a ser ato.

Li em Fernando Pessoa:
"Quando te tinha diante
Do meu olhar submerso
Não eras minha amante...
Eras o Universo...
Agora que te não tenho,
És só do teu tamanho."


Penso, então, que o criar em potência seja a admiração que nos toma: tudo parece vazio quando na verdade o Universo é imenso demais para ser visto de perto. Quando se vai, lá adiante, e pode ser escondido sob o polegar, fechando-se um olho, torna-se do meu tamanho e posso então reproduzí-lo.

Sim, talvez seja esse o segredo da criação: criamos coisas de nosso tamanho ou ficamos em silêncio admirando o universo, sem tentar pintá-lo, escrevê-lo, quando se dá a nós. Os gênios são os que criam obras maiores que si mesmos.

Percebo então que a sabedoria está em apreciar a inspiração antes de pensar na música. Quando criamos, descrevemos o que se foi. Já passado, relatamos a paisagem.

Pois então fique! Continuo mudo, não me importa o relato.

Não sou uma sala vazia.
:: 02 April 2008 »

Coisas que são ditas

"Consente que este olhar que em ti se está cravando,
consente que estas mãos às tuas abraçando,
te expressem mudamente o que de mim tens feito,
o que nem cabe em voz, nem cabe já no peito;
permite-me engolfar-me em bem-aventurança,
num afecto sem fim, sem quebra nem mudança"

- Fausto para Gretchen, Goethe

Coisas que não são ditas

Um dia, há muitos anos, meu pai comprou um videocassete e descobri que havia mais nos filmes do que me mostrava a TV. Acabei conhecido por pegar filmes que ninguém queria assistir. Chegava da locadora às sextas com um pacote, todos vinham ver o que trazia e mal escondiam a decepção: “não tem nada que preste?”.

Confesso que muitos daqueles filmes eram mesmo insuportavelmente chatos, mas era preciso vê-los. Não é possível odiar algo que não se conhece, mas é possível odiar algo que não se entende. Retomo isso adiante.

Durante essas idas e vindas, assisti ao trabalho de um diretor, muito comentado na época, chamado Kieslowski. Tratava-se de uma série para a TV baseada nos 10 mandamentos, ou “Decálogo”. Alguns episódios eram chatos, não me importei muito. Um deles, no entanto, era muito bom e baseado em um longa anterior, chamado “Não amarás”.

Ambos tratam de um rapaz, funcionário dos correios da Polônia, que se apaixona por uma vizinha e a observa à distância. O mais perto que se consegue chegar é quando envia falsos avisos de correspondências, trocando enfim algumas palavras com a amada. Nada de muito interessante até ai.

Cada vez mais apaixonado, vai se aproximando e se envolvendo com a mulher que em certo momento... Não é isso que importa agora! As versões têm finais diferentes, um esperançoso (“Não amarás”) e outro amargo (a versão mais curta, do Decálogo). Gosto de ambos, por motivos diferentes.

Retomo o foco do texto, então. Disse logo acima que é possível odiar o que não se entende, mas não odiar o que não se conhece, mas ao mesmo tempo concordo com a premissa do filme de que pode-se amar o que não se conhece.

O ódio vem sempre acompanhado de tentativas racionais, de explicações. É preciso justificá-lo de alguma forma para não parecer idiota. Os grandes monumentos do ódio precisam de explicação: o massacre deste ou daquele povo, as guerras e conflitos de outros...

Como se faz, então, quando se tenta explicar Romeu e Julieta, Fausto e Gretchen, Dante e Beatriz? Sabemos que há razão contida em todos, mas há também tanto de coração que a razão nada explica em totalidade. Não existem palavras e as que existem não formam frases. Seria preciso uma nova língua?

Quem é que não consegue entender o motivo do poeta que desce ao inferno para resgatar Beatriz? Quem é que lê Goethe e não consegue entender a redenção de Fausto em Gretchen? Quantos podem, no entanto, colocar isso em palavras? A própria necessidade de buscar o sentido, a beleza e a complexidade dessas obras as faz imortais.

Os grandes poetas não perderam tempo tentando explicar, mas em compreender, mostrar as ações dos personagens. Há dificuldade em transpor as palavras, em dar explicações, mas é tudo tão natural que as próprias representações nos falam, são exemplos, são mitologias. São arquétipos e como tal falam ao interior antes de falar à razão.

Qual a dificuldade, então, em entender que é, sim, possível amar o que não se conhece? Não há dificuldade alguma! Há, sim, dificuldade em transpor as palavras, em acreditar no não-dito, acreditar nos fatos e ignorar as premissas.

O não-dito deverá ser sempre demonstrado. As representações devem ser vividas, não faladas. As sementes devem ser colhidas e plantadas.
:: 30 March 2008 »

Sinais

Pedaços de uma história, passos: um caminho.

Apenas duas almas percorrem o sinuoso trajeto, complexo, cujo todo não se faz visível. O objetivo final ambos sabem, ambos querem, perseguem.

É um caminho único.

Marcas vão ficando, marcos também: as músicas da trilha sonora, os vídeos da paisagem, aqui e ali, em silêncio, vão sendo deixados. São pedaços, guias, indicando que há sincronia. Sinais.

As palavras trocadas formam um diário. Há um diálogo. Duas pessoas caminham lado a lado, conversam sutilmente e tudo é dito. A razão, perdida há muito, compreende cada símbolo, uma nova linguagem se forma.

Ali está um sinal, logo além estará outro... Sentidos-sentimentos expostos.

E quando a trilha chegar a um ponto, lá adiante, novos sinais serão encontrados, criados.

Novas palavras, novos sons. Sensações, talvez.

Espero.

Escrevo.

Sigo, passo a passo.
:: 22 March 2008 »

Magic doors

Logo ali há uma porta, mágica. Atrás dela há o que não pode ser escondido, permanece sempre aberta, não há trancas. Há, no entanto, um buraco feito para espionar.
A porta está aberta, apenas encostada, mas ninguém a empurra, se limitam a espiar pelas frestas.

Conto segredos em público, abro a porta, mas ninguém vê.
:: 21 March 2008 »

A máscara

Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágua em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.

E entre a mágoa que a másc’ra eterna apouca
A Humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.

- Augusto dos Anjos

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