João Cláudio é um cara moderno. Fuma "unzinho" e defende a liberação das drogas em geral. Crê estar na Holanda. Notório defensor de marginais, admira pessoas da "periferia", independentemente de este ser apenas um conceito chique, uma espécie de rótulo para tirar proveito de uma situação, a saber, a isenção ideológica proporcionada. João Cláudio admira um “rapper” que vive de apologia ao crime. Também admira um escritor, tão pobre de idéias quanto de propostas. João Cláudio representa uma larga parcela da população, mas não se iludam: é um indivíduo, existe.
Não há muito, João Cláudio chegava em casa. Periferia, de certo modo, mas nem tanto: São Paulo é grande, existem lugares piores. Ao abrir a garagem, foi abordado por dois assaltantes, drogados, crack, provavelmente. Colocaram uma arma em sua cabeça, levaram carro, carteira, a aliança de casamento.
Indignado, João Cláudio procurou a polícia, registrou B.O. A quem mais iria pedir ajuda? Aos “rappers”? Ao escritor? Ao fornecedor? João Cláudio recorreu a quem era conveniente. A polícia recuperou o carro, encontrado não muito longe sua residência, muito próximo a uma favela.
O susto se foi, mas deixou João Cláudio pensativo: “preciso me defender, não há polícia aqui”. João havia esquecido que seu carro fora recuperado. A conveniência mudara: João Cláudio precisava se proteger, proteger sua família. João fora ferido em sua virilidade, precisava fazer algo. Comprou uma pistola 380, ilegalmente.
Esposa e filhos dividem o mesmo teto de João. Três filhos. João não sabia onde guardar a pistola, não havia se preocupado com isso. O que João Cláudio não pensara era de ordem prática, logística, e agora precisaria resolver, não podia arriscar a vida das crianças. Decidiu carregar a arma consigo.
Na mochila, junto a seu corpo, viajava o brinquedo, do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Restava, no entanto, o medo, de outro tipo. Não dos assaltantes, mas da polícia. Como justificar a posse de tal objeto em uma eventual abordagem? Não podia. João Cláudio precisava se livrar da pistola. Já sabia a quem recorrer...
Clarão é um traficante, conhecido de longa data de João Cláudio. João o achava um sujeito “classe A”, um comerciante, como qualquer outro. Fecharam negócio: um pedaço de “fumo” a troco da pistola. Clarão não precisava da arma, aceitou-a pela amizade, iria revendê-la. João Cláudio, feliz pelo negócio, afirmou: "não dava pra deixar em casa, me preocupo com meus filhos".
João Cláudio se preocupa com os seus filhos, não com o dos outros. João Cláudio não sabe que a arma apontada antes para seus filhos está agora apontada para os filhos de outrem. João Cláudio não se interessa pelos demais, essa não é sua função. Apontar o dedo, acusar e julgar, sim. Avaliar a si? De forma alguma. Tal como o presidente eleito por ele, é livre de pecado.
João Cláudio não se importa. Fuma seu prêmio e esquece.