A-Set's Official Diatribe

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"If the only tool you have is a hammer, you tend to see every problem as a nail." - Abraham Maslow
:: 01 November 2007 »

A astúcia de João Cláudio

João Cláudio é um cara moderno. Fuma "unzinho" e defende a liberação das drogas em geral. Crê estar na Holanda. Notório defensor de marginais, admira pessoas da "periferia", independentemente de este ser apenas um conceito chique, uma espécie de rótulo para tirar proveito de uma situação, a saber, a isenção ideológica proporcionada. João Cláudio admira um “rapper” que vive de apologia ao crime. Também admira um escritor, tão pobre de idéias quanto de propostas. João Cláudio representa uma larga parcela da população, mas não se iludam: é um indivíduo, existe.

Não há muito, João Cláudio chegava em casa. Periferia, de certo modo, mas nem tanto: São Paulo é grande, existem lugares piores. Ao abrir a garagem, foi abordado por dois assaltantes, drogados, crack, provavelmente. Colocaram uma arma em sua cabeça, levaram carro, carteira, a aliança de casamento.

Indignado, João Cláudio procurou a polícia, registrou B.O. A quem mais iria pedir ajuda? Aos “rappers”? Ao escritor? Ao fornecedor? João Cláudio recorreu a quem era conveniente. A polícia recuperou o carro, encontrado não muito longe sua residência, muito próximo a uma favela.

O susto se foi, mas deixou João Cláudio pensativo: “preciso me defender, não há polícia aqui”. João havia esquecido que seu carro fora recuperado. A conveniência mudara: João Cláudio precisava se proteger, proteger sua família. João fora ferido em sua virilidade, precisava fazer algo. Comprou uma pistola 380, ilegalmente.

Esposa e filhos dividem o mesmo teto de João. Três filhos. João não sabia onde guardar a pistola, não havia se preocupado com isso. O que João Cláudio não pensara era de ordem prática, logística, e agora precisaria resolver, não podia arriscar a vida das crianças. Decidiu carregar a arma consigo.

Na mochila, junto a seu corpo, viajava o brinquedo, do trabalho para casa, de casa para o trabalho. Restava, no entanto, o medo, de outro tipo. Não dos assaltantes, mas da polícia. Como justificar a posse de tal objeto em uma eventual abordagem? Não podia. João Cláudio precisava se livrar da pistola. Já sabia a quem recorrer...

Clarão é um traficante, conhecido de longa data de João Cláudio. João o achava um sujeito “classe A”, um comerciante, como qualquer outro. Fecharam negócio: um pedaço de “fumo” a troco da pistola. Clarão não precisava da arma, aceitou-a pela amizade, iria revendê-la. João Cláudio, feliz pelo negócio, afirmou: "não dava pra deixar em casa, me preocupo com meus filhos".

João Cláudio se preocupa com os seus filhos, não com o dos outros. João Cláudio não sabe que a arma apontada antes para seus filhos está agora apontada para os filhos de outrem. João Cláudio não se interessa pelos demais, essa não é sua função. Apontar o dedo, acusar e julgar, sim. Avaliar a si? De forma alguma. Tal como o presidente eleito por ele, é livre de pecado.

João Cláudio não se importa. Fuma seu prêmio e esquece.
:: 28 October 2007 »

Mocinhos e bandidos

Assisti Scarface novamente esta tarde. Havia assistido apenas uma vez, há mais de 20 anos, com certeza. Era garoto e na época o filme era lançamento. As personagens mudam e a porcaria continua a mesma. Me recordo que a molecada da rua, eu inclusive, achava Tony Montana o máximo, um herói. Todos queriam ter dinheiro, poder e armas.

Os ídolos passam (na maioria dos casos) e dão lugar a pessoas que admiramos, algumas próximas, a quem admiramos pelo caráter que aprendemos a reconhecer e outras tantas que sequer iremos conhecer pessoalmente, mas que admiramos por motivos diversos, seja pela capacidade de fazer algo, de criar, de se expor, enfim.

Tenho diversos desses casos para citar, tanto no âmbito pessoal quanto no outro. Passados tantos anos, o que penso de Tony Montana (e de tantos outros como ele que vieram posteriormente) não é nada agradável. Dito isso, copio abaixo um pedaço de um pronunciamento de uma pessoa que não conheci mas gostaria de ter conhecido:

"Peço desculpas aos Srs. Deputados, por às vezes me inflamar, mas é que sinto na carne. Sou o maior condenado deste país. Nunca na história do Brasil teve um condenado como eu. O meu grande crime não foi o do Fernandinho Beira-Mar, nem o do Geléia e nem o do Marcola, meu grande crime foi defender uma situação, assumir, expor-me, não me esconder. Se V. Exas. quiserem, meu telefone está na lista. Aliás, nunca tirei meu telefone da lista. Pois se me omitir, se me esconder e não assinar aquilo que fiz, não sirvo para ser policial." - Cel. Ubiratan
- Integra aqui

Para complementar o pensamento, outro dia um oficial da PMERJ dizia em entrevista: "o Tropa de Elite teve um efeito positivo: antes as crianças cresciam querendo ser traficantes, hoje querem ser do BOPE". Faz sentido, mas não é uma idéia sólida. Basta aparecer um filme com mais violência, personagem forte, frases de efeito e pronto, novo ídolo criado.

O texto ficou confuso, porco mesmo, eu sei, mas é domingo à noite, estou indo dormir, pensando que amanhã vou acordar, trabalhar como milhões de outros, e corrigir ou torná-lo mais claro é a menor das minhas preocupações.

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