A-Set's Official Diatribe

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"If the only tool you have is a hammer, you tend to see every problem as a nail." - Abraham Maslow
:: 22 March 2008 »

Magic doors

Logo ali há uma porta, mágica. Atrás dela há o que não pode ser escondido, permanece sempre aberta, não há trancas. Há, no entanto, um buraco feito para espionar.
A porta está aberta, apenas encostada, mas ninguém a empurra, se limitam a espiar pelas frestas.

Conto segredos em público, abro a porta, mas ninguém vê.
:: 21 March 2008 »

A máscara

Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágua em sua essência.

No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.

Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.

E entre a mágoa que a másc’ra eterna apouca
A Humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.

- Augusto dos Anjos

Palavras, sentidos, momentos...

Palavras, quietas, misteriosas, explosivas, vazias de sentido se tomadas individualmente, solitárias. Lá estão todas, apenas palavras, carecendo sentido, lógica... carecem de corações que as organizem.

Em silêncio pensamentos se cruzam, falam um ao outro de seus momentos, confissões talvez, dividem segundos, dividem letras, escrevem...

Tenho cá comigo várias delas, vivas em minha memória, organizadas, cheias de um toque aveludado, inflamado, quase palpável. Compreensão? Em um segundo se conectam, de repente se organizam, frases se formam. De repente.
:: 20 March 2008 »

O melhor dos mundos

Estou aqui, pensando aos ventos, leme solto e sem rumo, como tanta coisa tem sido. Já planejei tanto e nada deu certo. Ouvi dizer que quando fazemos planos, Deus gargalha. Acho que a frase era essa, mas se não for faz sentido do mesmo jeito.

Para Leibniz, este é o melhor dos mundos, o melhor mundo escolhido por Deus dentre as possibilidades, tendo visto toda a sequência do universo, e ainda assim, no entanto, somos livres. Como podemos ser livres se Deus sabe o que faremos, então? Minha leitura me leva a crer que somos livres por ignorarmos o próximo instante. Deus sabe o que faremos, nós não. Temos livre arbítrio, faremos nossa melhor escolha, por pior que seja. Volto às gargalhadas divinas, então...

Planejei tanta coisa, escrevi tantos sonhos, vi a mim mesmo fazendo coisas que jamais fiz, disse a outros que faria outras tantas que jamais farei. Algumas se tornaram reais, outras, não. Faço muitas escolhas e muitas não se realizam, outras tantas dão errado e, por fim, algumas se tornam reais.

Não posso montar um padrão, ver a matemática dos resultados. Creio que exista, mas não posso vê-la. Acho que conhecer esse padrão seria ver a máquina do mundo, como em os Lusíadas, mas não tenho esse poder. Não sei se dentre X tentativas, Y irão funcionar. Não sei, também, qual o esforço mínimo e máximo deve ser dedicado. Já ouvi dizer - e disse algumas vezes também - que quem quer algo, vai atrás, se esforça. É verdade, acho, mas nem sempre funciona. Já me esforcei por coisas que deram em nada, já consegui outras sem esforço algum.

Deus gargalha? Não sei, não faz diferença. O fato é que deveria estar dormindo a essa hora. Me deitei tarde, mas com o objetivo de dormir. Daqui algumas horas estarei trabalhando novamente. A insônia é que me mantém aqui, escrevendo. Não era parte dos meus planos. Talvez seja parte do melhor dos mundos: me faz pensar. Só não sei ainda em que.

Medo da Eternidade

Um conto da genial Clarice Lispector, "Medo da Eternidade":


Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.

Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

LISPECTOR, Clarice. Medo da eternidade. In: A descoberta do mundo. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984. p. 446-8.

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